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Estudo Longitudinal de um Grupo de Crianças Falantes Nativas do Português
Europeu
Neste trabalho, é discutida a possibilidade de o conhecimento ortográfico
dos sujeitos interferir sobre determinadas propriedades do seu conhecimento
fonológico.
O principal fundamento para essa discussão encontra-se especialmente em
numerosos estudos da área da psicolinguística que se têm debruçado sobre
dois assuntos: (i) a emergência da consciência fonémica dos sujeitos,
aparentemente exclusiva de indivíduos com conhecimento da escrita
alfabética; (ii) o processamento linguístico, em diversas manifestações,
que apresenta diferenças entre sujeitos atribuíveis ao conhecimento
ortográfico.
Um dos objectivos do presente trabalho consiste em integrar esta discussão
no âmbito da linguística: sendo o conhecimento fonológico parte integrante
do conhecimento da língua, e sendo este, segundo a linguística generativa,
o objecto central de estudo da linguística, pareceu-nos relevante não
circunscrever o estudo destas questões à esfera exclusiva da psicolinguística.
Tendo em mente estes pressupostos e limitando o nosso campo de observação
ao português europeu, procurámos investigar a influência do conhecimento
ortográfico sobre o conhecimento fonológico a dois níveis: 1) emergência
das capacidades de manipulação fonémica; 2) divisões silábicas explícitas
das sequências consonânticas Obstruinte+Lateral e Obstruinte /S/+Obstruinte
do português. Para tanto, foi empreendido um estudo longitudinal de 42
crianças falantes nativas monolingues do português europeu que as observou,
através de testes metafonológicos e de produção escrita, ao longo dos dois
primeiros anos de escolaridade. Foi então verificado que, antes da
aprendizagem da escrita, as crianças da população não evidenciam
capacidades de manipulação fonémica e apresentam maioritariamente divisões
silábicas das referidas sequências não conformes às respectivas normas
ortográficas (considerando preferencialmente as sequências
Obstruinte+Lateral como heterossilábicas e as sequências Obstruinte
/S/+Obstruinte como tautossilábicas). Após a aprendizagem da escrita,
verificou-se a emergência das capacidades de manipulação fonémica e uma
conformação das divisões silábicas explícitas aos padrões consignados pela
ortografia oficial (passando as sequências Obstruinte+Lateral a ser
preferencialmente divididas como tautossilábicas e as sequências Obstruinte
/S/+Obstruinte a ser divididas preferencialmente como heterossilábicas).
Com base numa série de argumentos amplamente desenvolvidos na dissertação,
as modificações identificadas quanto aos aspectos referidos foram
atribuídas à aprendizagem da ortografia da língua e foram interpretadas
como indício sugestivo de que o conhecimento fonológico – que regula
aspectos como os explorados – não seja totalmente impermeável a um factor
ligado à experiência cultural dos indivíduos como a aprendizagem ortográfica.
Subsidiariamente, é concedido relevo ao tópico do valor das operações
metafonológicas explícitas e das primeiras produções escritas infantis
enquanto elementos reveladores do conhecimento fonológico implícito dos
falantes.
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